Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Pensamentos...

Eu me lembro bem da primeira vez que a vi. Seu olhar, o qual se mostraria diversas vezes perdido, transmitia uma sensação de segurança e satisfação de estar no lugar que estava. Orgulhosa de si, de suas conquistas e das recompensas que elas trouxeram pra sua vida. Tudo parecia ter finalmente se encaixado naquela confusa e agitada vida.

A primeira impressão que ela passava era de ser uma mulher de personalidade forte, determinada, diferente de todas e orgulhosa disso. Provavelmente eram os cabelos que causavam essa impressão, em certas partes verdadeira, diga-se de passagem. Cabelos esses de um vermelho tão forte e intenso que assustavam ao primeiro olhar, mas apaixonavam aos olhares seguintes. Ela sabia disso e usava, mesmo que inconscientemente esse poder de atração, de Femme Fatale, ao seu favor.

Tudo, pela primeira vez em anos, parecia estar no lugar onde sempre deveria estar. As brigas de família já não tinham tanta importância quanto antes. As brigas com o namorado muito menos. Aliás, que namorado?! As cobranças, as pressões, o que antes a enchia de angústia, tinham dado lugar aquela sensação de segurança que ela transmitia no olhar. Tudo, pela primeira vez em anos, parecia estar no lugar onde sempre deveria estar.

Mas como nem tudo são rosas (mesmo que aquelas rosas combinassem com seus cabelos), aquela sensação de segurança ia dando lugar a dúvidas e incertezas. Aquelas velhas dúvidas e incertezas que a faziam querer fugir, de tudo e de todos e ficar, pelo menos por instantes, em um mundo só dela e de mais ninguém. Mais uma vez, seu mundo saia do lugar quando ela achava que a situação estava sob controle. E ela, mais uma vez, não sabia o que fazer.

E pensava. Pensava em todo o caminho percorrido. Pensava em tudo que vivera até aquele momento. Pensava no tempo que ela desperdiçara e no tempo que ela continuava desperdiçando. Fosse por falta de coragem de mudar ou mesmo por acomodação. Pensava na vida como um todo. E de tanto pensar, chegou a conclusão que tudo, mais uma vez, ia acabar em pensamento.

Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Pingos de Amor...

"Meu amor. Eu continuo esperando ouvir sua voz do outro lado. Meus dedos já estão gastos de tanto repetir o seu número naquele velho telefone de roleta. Eu vejo os dias passando através da janela, mas mal consigo me mexer. Tudo foi tão rápido que nem deu tempo de agir.

Eu me pergunto se eu não vou mais ouvir sua doce voz outra vez. Será que tudo foi por água abaixo?! Será que tudo acabou assim, de uma hora pra outra?! Será que eu não merecia ao menos uma chance de te explicar?! Será que logo você, tão madura, tão certa de si, ia agir feito uma criança imatura e se isolar no seu próprio mundo?!

Eu não consegui te dizer, mas no dia que você partiu, eu resolvi andar pra tentar entender. Lembra aquela praia que a gente costumava ir nas madrugadas de sábado?! Aquela maré alta, aquela areia macia, aquela lua cheia iluminando o céu. Tudo aquilo me fez lembrar o seu sorriso, a sua força, o nosso amor. Não é possível que tudo acabe assim, tão de repente...

O telefone continua chamando e você não atende. Mas eu não desisto, e você sabe disso. Nada vai me fazer esquecer aquela promessa que você tinha me feito, lembra?! Hoje era o dia que a gente tinha tanto esperado, e eu ainda espero que você volte a ser o que você era antes de tudo isso. Eu ainda espero que aquela promessa seja realizada hoje.

Bom, como você não atende, ao menos leia essa carta, que eu estou deixando debaixo da sua porta, vou pro lugar que a gente combinou antes. Espero que as letras que ficaram borradas pelas minhas lágrimas não te impeçam de ler o que eu escrevi. Você sabe onde me encontrar.

Está chovendo cada vez mais lá fora. E está chovendo cada vez menos aqui. As lágrimas e os pingos se transformam em uma só gota. Está chovendo pingos de amor..."


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Sem tempo pra internet, por isso a ausência. Quando der, volto com força total. Por enquanto, isso é tudo. Enjoy!

Domingo, 24 de Agosto de 2008

Valsas e comprimidos...

O tempo tinha passado depressa demais pra linda menina que bailava ao som das mais belas valsas. A pureza do olhar, a delicadeza dos gestos, a doçura da voz, tinham ido embora com o passar dos anos. Duros anos, que transformaram aquela delicada amante da arte em uma forte e determinada mulher de negócios.

Aquelas belas valsas que tocavam na vitrola de sua avó quando ela era mais nova, foram trocadas por desafinadas buzinas, milhares de vozes que tentavam uma sobressair sobre a outra, e diversos comprimidos para enxaqueca. Ela sentia falta daquelas melodias perfeitas, mas seu tempo livre era tão raro, que nem as melhores lembranças de sua infância arranjavam um lugar nele.

Aliás, ela acabava de se repreender por se pegar cantarolando, mais uma vez, aquela valsa, do segundo espetáculo que ela tinha feito quando criança. Essas distrações estavam se tornando cada vez mais comuns, mesmo ela fazendo de tudo para esquecer dessa nostalgia "estúpida" (pelo menos era o que ela dizia a si mesma para se convencer) e voltar aos negócios. Fazia muito tempo que ela trabalhava para conseguir esse importante projeto e não ia deixar nada atrapalhar. Nada.

Rascunhos e projetos na sua frente. Notas e melodias na mente. Água e remédios na mesa. Lembranças e valsas na cabeça. A caneta sendo usada cada vez mais forte. A música tocando cada vez mais forte...

Ela queria fugir. Talvez todos queiram fugir, mas poucos tenham coragem pra isso. E ela, os olhos viajando entre os comprimidos e as chaves, se indagava se teria a coragem necessária para abandonar tudo. Ela sabia que era um caminho sem volta. Se fosse embora naquele momento, sabia que uma nova vida começaria, e tudo que fora conquistado até o momento ficaria pra trás.

Os olhos continuavam viajando. Comprimidos, chaves, indecisão, atitude, certo, duvidoso. Os olhos pararam por um momento. E o brilho do metal das chaves era refletido no brilho do seu olhar. A decisão estava tomada. Já passava da hora de escolher.

Num brusco movimento, sua mão direita parou sobre o molho de chaves. A mão esquerda, livre, serviu para abrir a gaveta ao lado. Guardou a chave lá dentro, pegou o copo d'água, um comprimido para enxaqueca e engoliu. Um talvez fosse pouco, então engoliu outro, só por garantia.

Sorriu, por se achar tão idiota ao ponto de cogitar a idéia de largar tudo. Ela sabia que nunca faria isso. Seu passado de bailarina não passava disso. De passado. As valsas aos poucos iam cessando. O som dos rabiscos nos papéis foi tomando o ambiente. A bailarina não bailava mais. Pelo menos não as velhas valsas...

Domingo, 13 de Julho de 2008

Girassóis...

Ela tinha passado a tarde toda deitada, sentindo o forte aroma de chão batido misturado ao leve perfume daqueles girassóis, e ouvindo o silêncio (daqueles que conseguem ser ouvidos, mesmo que só por algumas pessoas) que a muito tempo ela almejava ouvir. Parecia que aquele lugar fora feito exatamente pra ela, e ela, como uma pessoa que acaba de receber o melhor dos presentes, aproveitou cada minuto possível naquele lugar.

Dizem que os Girassóis surgiram após uma linda moça se apaixonar pelo Deus Apolo e acompanhar seu trajeto pelos céus, dia após dia, até se tornar a flor. Mas ela nunca acreditava em histórias, fossem reais, fantasiosas ou as ambas juntas. Talvez pelas desilusões com as suas próprias histórias (fossem elas de amor ou de aventura), só os fatos reais importavam. Histórias não passavam de sonhos agora. Daqueles sonhos que não são sonhados, diga-se de passagem...

Mas passar a tarde toda deitada em um campo de girassóis, apreciando a beleza do Sol (que era observado e até mesmo julgado por aqueles belos e questionadores olhos negros) e de suas admiradoras amareladas, é algo que faz até mesmo a mais cética das pessoas, acreditar em alguma coisa. Nem que seja numa simples história ou num grande sonho (ou talvez em ambos). E ali, no meio daquela imensidão de cores vibrantes, ela acreditou. Não sabia ao certo em que (ou em quem), mas algumas histórias passavam a fazer sentido (mesmo que não fizessem sentido algum).

O vento aumentava a medida que Apolo cavalgava pra longe, pro outro lado. Ela agora acreditava em Apolo e acreditava em Girassóis. E mesmo sem saber, acreditava naquelas velhas histórias de amor. E talvez tenha sido isso que tenha colocado aquele sorriso satisfeito no rosto dela. E definitivamente foi isso que transformou aqueles questionadores olhos negros em olhos repletos de certeza e ardor.

Ela se levantou. Já era tarde, e Apolo já tinha levado sua carruagem para outro lugar. A Lua surgia imponente no céu limpo, sem estrelas. Ela sabia que tinha muito a aprender e a acreditar ainda, e que essa mesma Lua ia ajudar nessa tarefa. Mas não naquele dia. Ela já tinha acreditado demais...
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Dedicado a Vabz Queiroz. Porque as vezes Gérberas se transformam em Girassóis ;)


Blog com nome novo!

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Páginas Arrancadas...

"Terceiro dia.

A cada minuto que passa eu me sinto mais absorvido pela atmosfera doentia desse lugar. Hoje não foi muito diferente dos dois primeiros dias. Pelo menos agora eu já tenho uma noção do que fazer e, mais importante ainda, o que não fazer.

Quando eu achei que isso aqui seria menos duro que a prisão, eu tava muito enganado. Parece que tudo isso é um mundo a parte (e talvez seja), que vai sugando sua sanidade aos poucos, até você chegar ao final da estrada, até você se tornar mais um deles.

Eu não entendo porque eu, um cara "normal", com emprego, família, amigos, e toda aquela merda que todo mundo tem, vim parar nessa droga de lugar. Eu nunca fui de saber muitas coisas, mas se tem uma coisa que eu sei é que eu não fiz nada que justificasse isso.

Mas quase nunca as coisas são como deveriam ser. Eu sabia que não devia ter mudado meu caminho aquela noite. Mas mesmo assim eu mudei. E aquela aparentemente pequena mudança, fez com que a minha vida inteira mudasse. Presenciar um assassinato brutal não é uma coisa que se possa considerar agradável. E muito menos quando o assassino é uma das pessoas mais influentes da porra da cidade.

De lá pra cá, foi tudo uma enchente de acontecimentos. Ele não podia ser preso, e alguém tinha que levar a culpa. Então sobrou pro idiota aqui que resolveu mudar o caminho pra casa naquela maldita noite. Em menos de uma semana eu já tava dentro da jaula, condenado pelas pessoas, facilmente manipuláveis, antes mesmo de ser condenado pela "justiça". Aliás, que justiça?! A justiça deles, ou a nossa?

Mas chega de remoer o passado. Eu sei que vai ser foda ficar por aqui, e se eu ficar pensando no passado eu vou ficar como eles bem rápido. Bem que o advogado que eles me arrumaram disse pra eu ocupar minha cabeça com alguma coisa antes que ficasse louco. E é por isso que eu tô aqui, escrevendo essa droga. É melhor que "conversar" com o cara que abriu a própria barriga porque as vozes mandaram, ou com a mulher que acha que é casada com Hitler. Bom, com ela eu não ia poder conversar, já que segundo os guardas tem quase 3 semanas que ela só fala em alemão.

Falando neles, e porque não com os guardas? Eu nunca fui muito com a cara de policiais, mas nessa situação eu até tentei conversar com um. Mas aprendi da pior maneira possível que é proibido qualquer contato com eles. O único contato que eu posso ter com os "cavaleiros azuis" como diz um dos meus companheiros de cela, é mediado pelo cassetete que eles usam pra controlar os presos. Então eu prefiro continuar escrevendo por aqui mesmo. É menos dolorido. Pelo menos fisicamente...

Bom, já é noite, e o sinal avisando que as luzes vão se apagar já tocou. Eu não dormi direito desde que cheguei aqui, e meu corpo demonstra isso. Acho que o cansaço vai acabar vencendo o meu senso de alerta, e o sono vai ser inevitável. Só espero que não aconteça nada comigo durante a noite.

O segundo sinal bateu. Daqui a dois minutos as estrelas serão a minha única companhia, então é melhor eu parar de escrever e guardar tinta na caneta pra amanhã. Já vi que vai ser difícil conseguir outra nesse lugar..."


Se vocês gostarem eu posto mais.

Desculpa a demora nos posts, é que a inspiração anda em baixa por aqui. Espero que gostem.

Abraços...

Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Xeque-Mate

Cada peça estava estrategicamente posicionada. Os peões na linha de frente, prontos para defender seu reino a todo custo. As torres nos cantos, prontas para atacar qualquer um que tentasse invadir seu território. A cavalaria pronta para agir assim que fosse ordenada. Os bispos ao lado do Rei e da Rainha, usando de toda sua influência e de toda sua astúcia. E finalmente, o casal real. A Rainha, jovem, vigorosa, perspicaz, pronta para derrotar qualquer um que cruzasse seu caminho. E o Rei. Apesar da idade avançada e dos movimentos debilitados, já tinha passado por inúmeras batalhas como essa, e sabia exatamente como comandar suas tropas a vitória.

Mais do que um jogo. Uma batalha. Mais do que uma simples batalha. Uma batalha pela honra. Quem quer que caísse, cairia com todas as suas forças. Seria a última e derradeira disputa pela honra, entre aqueles 2 reinos, entre aquelas 2 vidas. Pretas e Brancas. Forças iguais, que só iriam se diferenciar com a vitória ou a derrota. Forças iguais e ao mesmo tempo muito diferentes.

O monarca branco dá seu sinal. A batalha tem seu início. Um peão, arrojado, corajoso, impetuoso, começa sua luta. O monarca preto dá seu sinal. Um cavaleiro, rápido, forte, resistente, corre pelo campo. Movimento após movimento. Cada passo pensado e calculado friamente. Cada passo em busca da queda do adversário. Que vença o melhor exército. Que vença o melhor estrategista.

A batalha continua a todo o vapor. Peões sucumbem. Torres são destruídas. Cavaleiros caem de suas montarias com destino ao abismo da morte. Bispos são assassinados em nome de Deus. Cada exército mostra suas forças e suas fraquezas a cada passo. A destruição aos poucos vai dando forma ao vencedor.

A Rainha branca sofre um golpe mortal do bispo preto. Um punhal cravado em seu peito faz a soberana daquele império se transformar numa mera mortal, frágil e vulnerável como todas as outras. Ela não tem mais forças para continuar. Deixa para seu esposo o pedido de vingança, o qual ele, com ódio no olhar, dá-lhe a confirmação que ela precisava para partir em paz.

Os exércitos quase não existem mais. O casal preto está acompanhado de seu bispo. O monarca branco está acompanhado de seu fiel cavaleiro, e de seu mais nobre peão. Os últimos e derradeiros movimentos definirão quem é o melhor. O rei branco, tomado pelo ódio, ordena o ataque de seu cavaleiro. Mas antes que este chegue a seu destino, a rainha preta sucumbe. E logo após ela, o rei preto.

Caído, sem forças, o monarca preto só teve tempo de ver o sorriso no rosto de seu bispo. A traição era eminente, mas ele preferira ignorá-la em prol da batalha. Pagara o preço por isso. Do lado branco, o cavaleiro e o peão comemoravam, enquanto o rei mostrava tristeza em seu olhar. Não era dessa maneira que ele queria vencer. Sua honra tinha sido jogada no lixo com aquela traição que tirara sua verdadeira vitória.

Ele não tinha mais motivos para continuar vivo. Sua esposa tinha caído. Sua honra estivera ao alcance das mãos e ela a deixara escapar. Com um último movimento de sua espada, cravou a lâmina em seu próprio peito, e foi ao encontro de sua amada e de seu nobre inimigo.

O peão olhava assustado e não entendia o motivo daquilo. O cavaleiro, um pouco mais esperto, sentia-se orgulhoso da nobreza de seu falecido rei. O Bispo ria com todas as suas forças. Seu plano estava completo. Não existia mais pretas e brancas. Tudo se misturava em um tom de cinza com o vermelho do sangue dos caídos. E ele, o astuto Bispo, se tornava agora o novo Rei, naquela fusão de cores, naquele novo reino. Pelo menos até a próxima batalha...

Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

O conto do céu desconhecido...

Que Saramago me perdoe! O texto vai ser polêmico, não espero que muita gente entenda o verdadeiro sentido dele, mas eu gostei e queria ver a opinião de algumas pessoas, e peço que comentem só quem leu ele todo. Uma paródia religiosa ao conto da ilha desconhecida de José Saramago:

"Um homem foi bater a porta de Deus e disse-lhe; Dá-me respostas. A casa de Deus tinha muitas portas, mas aquela era a das orações. Como Deus passava quase todo tempo na porta dos oferendas (pra onde você achou que o dízimo ia?), ele muitas vezes esquecia da porta das orações, e só quando o som das trombetas dos Tronos ressoava alto pelo salão celestial e tirava o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, que Deus temos nós, que não atende), é que dava ordem ao Arcanjo mais próximo para saber o que era tão importante. Então, o Arcanjo chamava um Serafim, que chamava um anjo, e assim sucessivamente, até chegar em um Querubim, o qual não tendo ninguém a quem mandar, entreabria a porta das orações e perguntava pela fricha; Que é que tu queres? O suplicante dizia ao que vinha, ou seja, pedia o que tinha a pedir e depois instalava-se a um canto da porta, esperando a resposta. O pedido fazia o caminho inverso, e chegava ao Querubim a ordem de dizer sim ou não, conforme a Maré.

Contudo, no caso do homem que queria respostas, as coisas não se passaram bem assim. Quando o Querubim lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era costume de todos, saúde, riqueza, casamento, filhos, respondeu, Quero falar com Deus, Já sabes que Deus não pode vir, está na porta das oferendas, respondeu o Querubim, Pois então vá lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tampando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair só por cima dele. E isso era um problema, já que a pragmática das portas dizia que só podia ser atendido um suplicante de cada vez.

No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido Deus, em real "pessoa", à porta das orações, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei ao Querubim, e ele perguntou, Toda ou só um bocadinho. Deus duvidou por um instante, mas depois percebeu que pareceria mal, o Todo-Poderoso falar com um fiel através de uma fresta, Toda, ordenou Deus.

O inopinado aparecimento de Deus (nunca tal coisa havia sucedido desde que ele andava de auréola na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos oradores, mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomaram-se nas janelas das casas celestiais, do outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo atrás de respostas.

Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, Deus tratou logo de fazer 3 perguntas seguidas, Que é que tu queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me respostas, disse. O assombro deixou Deus a tal ponto desconcertado, que o Querubim tratou logo de pegar o banquinho o qual ele próprio usava quando precisava trabalhar.

Mal sentado, pois o banquinho era pequeno e incômodo, Deus perguntou, meio a contragosto, E tu quais respostas desejas obter, pode-se saber, Eu quero saber por que não me fizeste ignorante como muitos outros, respondeu o homem, Mas a ignorância é um defeito, e não uma qualidade, respondeu Deus, disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, Pelo contrário, a ignorância é a maior das virtudes, respondeu o homem, Disparate, eu criei os defeitos e as virtudes e sei quais são quais, respondeu Deus, Quem foi que te disse, Deus, que as vezes as coisas não podem se modificar ao longo do tempo, Porque elas sempre foram assim, Elas sempre foram até mudar, Eu sou o Deus desse mundo e sei o que muda e o que não muda, sem mim vocês não são nada, Pelo contrário Deus, sem nós tu não és nada, sem nossa crença, nossa fé, o senhor não teria razão para existir, mas nós continuaríamos.

Deus, um pouco mais sério, perguntou-lhe, Então me digas por que a ignorância se tornou uma virtude, Porque, Deus, graças a ela as pessoas podem ser felizes, respondeu o homem, Como assim felizes, Bom, as pessoas ignorantes, não se preocupam se vêem aqueles que deveriam nos ajudar nos prejudicam, não se preocupam com as injustiças, nem com os problemas do mundo, nem com a vida sofrida alheia, Deus, elas só se preocupam em serem felizes, sem ligar para o que passa sua volta, fingindo que não é com elas, ou mesmo não entendendo o que se passa ao seu redor, pelo contrário, elas precisam de pouco para serem felizes, não importa se tem gente passando fome, se tem gente morrendo pela violência, gente largada na rua, o que importa é dar a oferenda ao senhor, ir a missa todos os domingos, mesmo que quando sair da igreja faça tudo ao contrário, o que importa é ver seu time vencer, e ter a cerveja do final de semana para comemorar.

Então, afinal, o que é que desejas, perguntou-lhe Deus, Desejo que me faça um ser ignorante, Pois bem então, vou dar-te a ignorância, mas as conseqüências serão tuas. Os gritos e aplausos do público não deixaram Deus ouvir o agradecimento do homem e nem seu pedido de um fígado extra para as cervejas dos finais de semana. Deus já havia voltado a porta das oferendas, e a hierarquia na porta das orações voltava a ser a mesma. Pelo menos por enquanto..."


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Se quiserem me xingar de Herege, me xinguem com conteúdo! Hahahahaha!
E fica aqui uma pergunta: Será que valeria a pena ser ignorante e alienado em prol da própria felicidade? Cá pra mim, não sei!

Abraço!

Terça-feira, 1 de Abril de 2008

A Grande Mentira

Os risos abafados se revezavam com escassos e singelos choros e exclamações de dor. Os sorrisos pelo ambiente se misturavam com as lágrimas. Aquilo poderia parecer tudo, menos o que era. Um velório.

Mas como esperar uma morte comum, de alguém que, em momento nenhum da vida, tivera essa característica como marca de sua personalidade? Não, ele não era comum. Nem incomum ou raro. Ele era único.

Seus pais, um palhaço aposentado e uma professora primária de história, deram-lhe o nome de Lord Kimb. Uma analogia, é claro ao Deus Nórdico da trapaça, LoKi. E nunca um nome serviu tão bem à uma pessoa, quanto para ele. Não se sabe se o nome o tinha inspirado, a fazer o que fazia, mas uma coisa era certa: ninguém tinha a capacidade de enganar tão bem quanto ele.

Desde criança, ele manifestava essa peculiaridade. Induzia os colegas todos a se unirem para realizarem alguma coisa grande, que seria impossível de ser feita sozinha, e enganava a todos para conseguir o que queria, ou muitas vezes por capricho, para mostrar a sua superioridade em relação aos demais. Quem poderia resistir aquele enorme e carismático sorriso? Sem mencionar os olhos, tão verdadeiros que pareciam falsos! E tão falsos, que pareciam verdadeiros...

Mas isso era só o começo daquela longa, e agora trágica, jornada através dos diversos campos da manipulação e da perspicácia. As "brincadeiras" foram ficando maiores, assim como os desejos e a megalomania mais do que insana. Cada vez mais, ele queria provar que era superior, melhor, mais esperto. E usava de todas suas artimanhas para enganar qualquer um que "ameaçava" sua hegemonia intelectual.

Aos poucos o que começou como diversão, foi se tornando seu modo de vida. Ele não trabalhava mais. Não era necessário. A facilidade em aplicar um golpe, e a enorme rentabilidade que eles lhe proporcionavam, era mais do que suficiente para largar toda e qualquer tentativa de "vencer" honestamente.

Não, ele não precisava disso. Isso era para os fracos, os desprovidos de um intelecto superior como o dele. Ele era melhor que todos eles e não iria perder seu tempo naquele ciclo vicioso que não o levaria a lugar nenhum. Pra que usar a escada, se ele tinha um elevador a sua disposição?

Ele não acreditava em Deus. Ou talvez até acreditasse, mas a idéia de ter alguém que sabia mais que ele, era assustadora. Ele acreditava nele mesmo. E era mais do que suficiente.

Já tinha interpretado todo tipo de papel naquela enorme peça que era a vida. E com um palco do tamanho da Terra, oportunidades era o que não lhe faltava. Empresário de sucesso, esportista premiado, autor de best-sellers, herdeiro de uma nobre família inglesa, professor acadêmico (e este tinha tido um sabor mais do que especial! Como fora bom enganar aqueles que se julgavam mais inteligentes que ele!), arqueólogo, em raras ocasiões, até mesmo mendigo. Cada papel que "interpretava", lhe dava a certeza de que ele era o melhor que todos os outros.

Mas como toda boa tragédia, o teatro da vida reservava suas surpresas e ironias. Aquela certeza de superioridade que Lord Kimb sempre buscou, aquela que ele julgava ser sua maior vantagem, acabou se transformando na sua maior fraqueza.

Aquela megalomania excessiva, aquele senso de superioridade imenso, o egocentrismo mais do que exacerbado, fizeram com que o trapaceiro fosse pego em sua própria trapaça. Ele, que desde o começo tratava seus jogos manipuladores como obras de arte, cometera o maior erro que um artista como ele poderia cometer. Assinar sua obra.

Ninguém nunca tinha descoberto suas farsas, e no final, ele sempre saia rindo de tudo e de todos, idiotas inferiores, que só serviam para sua sádica diversão. Mas por um pequeno descuido, um simples ato falho, fez ruir seu império de sadismo e mentiras. Ele fora descoberto. Alguém, em algum lugar, tinha conseguido ganhar dele em seu próprio jogo.

Existe algo pior para alguém que se achava superior por ser perfeito na arte de enganar, do que ser enganado? Aquilo era mais do que ele poderia suportar. Aquela busca pela perfeição o tinha deixado louco, e a descoberta que ele não era imune o fizeram tomar aquela última e desesperada atitude.

Uma arma em punho, uma bala no tambor, um dedo no gatilho, um barulho ensurdecedor e um rastro de sangue. Tudo tinha ido embora em um instante, em um segundo. Toda aquela teia de falsidades que ele teceu ao longo da vida, ruira com uma simples bala. O teatro da vida tivera seu Gran Finale.

O seu velório continuava com aquele jeito peculiar. Mas pra uma vida repleta de peculiaridades, o que seria uma morte simplória? Ele vivera pela mentira, e não tinha outro jeito de morrer, se não fosse por ela. E mesmo após a morte, as mentiras continuavam. Fosse tristeza, fosse alegria, a sinceridade não era algo presente naquele lugar.

Mas quem sabe, aquele enorme e carismático sorriso, aliado com aquele olhar verdadeiro, não tivera a chance de realizar uma última e derradeira trapaça? Quem sabe ele não tenha tido a chance de enganar a própria morte e esteja vagando por aí, como um mendigo, um professor, ou um empresário de sucesso, como um coadjuvante a espera de reassumir seu papel de destaque na maior de todas as peças? Sinceramente? Não sei...

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Feliz dia da Mentira!